Espiritualidade Cristocêntrica e suas Implicações

October 20, 2016

   

 

Ao ser questionado quais seriam as maiores necessidades da igreja hoje, o reverendo inglês John Stott apontou entre outras, a seguinte necessidade: “Ser fiel na proclamação da singularidade e centralidade de Jesus Cristo, em particular, diante da cultura pluralista e seus desafios”. Muito antes de Stott, o apóstolo Paulo ao escrever a Timóteo declarava: “Lembra-te de Jesus Cristo...” (2 Timóteo 2.8). Esta ênfase do apóstolo de não perder o foco, ou seja, o centro da revelação de Deus na Escritura – Jesus Cristo, ao qual Stott e tantos outros pensadores cristãos modernos compartilharam, traz-nos a certeza  de que a espiritualidade cristocêntrica traz consigo algumas implicações.

    Viver um espiritualidade cristocêntrica implica em perceber a verdadeira  identidade de Cristo revelada no Evangelho.  É notório que a espiritualidade cristã atual se distancia cada vez mais da mensagem pregada e vivida por Jesus de Nazaré. A espiritualidade pós-moderna parece ter adotado outros modelos não coerentes com Jesus. Estes modelos são buscados principalmente nos paradigmas  atuais, muitas vezes amoldados mais a “cultura pós-moderna” do que ao modelo bíblico . Parece que o ideal de cristianismo é possuir poder, seja econômico ou de domínio de pessoas. Fama e prestígio diante da sociedade tornou-se o modelo do cristão vitorioso. Isto resulta em um discipulado inexistente ou superficial, abrindo espaço para o pragmatismo – não importa o que é certo e sim no que dá certo. Quando se perde a identidade de Jesus, ou seja, a sua pessoa e mensagem, a espiritualidade torne-se apenas utilitária do nome de Jesus, para abrir as portas da prosperidade, deixando de lado o conteúdo por trás deste nome.   Temos diante de nós o desafio de reler os evangelhos e buscar reconhecer a pessoa de Cristo. Seus valores, suas prioridades, sua ética, seu conceito de discipulado, sua proposta de que o valor da existência humana é “ser”  e não o “ter”.

    Precisamos perceber o Cristo que é o “Rei dos reis e Senhor dos senhores”, como também  imitar o Cristo que nasceu na humilde manjedoura e viveu como servo que lava os pés de seus discípulos. Precisamos perceber o Cristo que é o “leão da tribo de Judá”, mas é também o “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Perceber o Cristo que levou na cruz nossos pecados para nos conduzir a Deus, como também o Cristo que nos convida a sermos seus discípulos, negando-se a si mesmo, tomando a nossa cruz e seguindo o Salvador em constante arrependimento e disposição para renunciar tudo aquilo que nos impede de viver o discipulado. Os dias atuais trazem consigo a busca por “mitos” que acomodem o padrão de vida pós-moderno – dinheiro, prazer, conforto e fama. O desafio é não confundir os mitos criados pelo evangelicalismo atual, perdendo de vista o Jesus da Escritura.

    A espiritualidade cristocêntrica implica também viver a “Missão Cristocêntrica”. Qual a prática e a vivência da nossa espiritualidade?

    Tiago em sua carta aponta que a verdadeira espiritualidade é evidenciada pela prática. “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo”. A proposta do Novo Testamento nos desafia a contemplar a Deus na adoração, enriquecendo nossa espiritualidade e abençoando nossa alma, porém nos impele a olhar o próximo e atender suas necessidades. Somos desafiados a expressar nossa espiritualidade no servir ao outro, seja ele quem for, acolhendo todos que Cristo acolhe. É como que nossos momentos de celebrações e devocionais só tivessem validade quando seguidos de espiritualidade prática, ou seja, de proclamar Jesus através de palavra e ações concretas em favor do outro.

    Temos em torno de nós, a começar dentro de nossos lares e passando pelo contexto social, inúmeras oportunidades de espiritualidade cristocêntrica de forma prática. Precisamos  ser cristocêntricos em nossa relação com o outro. Vale lembrar a declaração do Movimento de Lausanne (Suíça,1974): “Todo o Evangelho, ao homem todo, em todo lugar”. A “práxis cristã” é inerente a espiritualidade cristocêntrica.

    Ainda convém refletir sobre a implicação de uma espiritualidade cristocêntrica que apresente santidade. Jesus viveu entre os pecadores, porém sem pecado. Os profetas do Antigo Testamento clamavam por santidade. Jesus no sermão da montanha declara: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mateus 5.48). Pedro escreve: “Sede santos, porque eu sou santo” (1 Pedro 1.16).     Somos desafiados em um mundo que relativiza comportamentos, pluraliza a ética e humaniza a verdade, viver em uma sociedade que cada vez mais inverte valores para acomodar a consciência em sua constante rebelião ao padrão estabelecido pelo Criador. A espiritualidade cristocêntrica reconhece a necessidade de ser relevante na pós-modernidade, porém não abre mão da santidade. A espiritualidade cristocêntrica implica em viver a vocação de ser raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamar as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1 Pedro 2.9). Implica em ser relevante, sem deixar de ser sal da terra e luz do mundo.

    Levando em consideração estas implicações de uma espiritualidade cristocêntrica, reconhecemos nossas fragilidades diante delas. Por outro lado, nos animamos ao saber que não estamos sós diante de tão grandes desafios. Temos a graça fortalecedora de Deus, a Palavra que nos revela o Cristo que é o centro de nossa fé e prática e a ajuda constante do consolador  Espírito Santo.  

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